2013 . documentário . 20min . Maceió-AL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A mulher, a casa e a rua. De memória, uma cidade cheia.

 

Dando continuidade ao projeto artístico desenvolvido por Alice Jardim em filmes premiados como Tempo (2010) e Todavia (2012), o documentário adota uma abordagem poética para buscar vestígios de memórias. Paredes descascadas, janelas e portas arrancadas, objetos pessoais abandonados durante a mudança, bichos que circulam pelo ambiente e uma planta que cresce em meio ao concreto ajudam a contar a trajetória de uma família que foi obrigada a deixar uma habitação onde viveu por cerca de 60 anos.

A narrativa é dominada pelas recordações de Dona Creusa, num relato que passeia por sentimentos contraditórios, do rancor ao saudosismo. O choque entre passado e presente chega ao ápice quando a rua “invade” a casa, com sua cacofonia visual e sonora.

 

 

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Ficha técnica:

 

depoimentos

CREUSA TRIGUEIROS LINS BRITZKY

e ANTONIO GINO BRITZKY

 

direção e fotografia

ALICE JARDIM

 

assistência de direção

NIVALDO VASCONCELOS

 

assistência de fotografia

ALBERT FERREIRA

RUA DAS ÁRVORES

 

 

pesquisa

IGOR BUARQUE

 

roteiro

ALICE JARDIM , NADJA ROCHA, NATASKA

CONRADO e NIVALDO VASCONCELOS

 

produção executiva

RAFHAEL BARBOSA

 

produção

MATHEUS NOBREALICE JARDIM

 

 

mixagem

HÉLIO PISCA

 

design gráfico

ALICE JARDIM e

NATASKA CONRADO

 

realização

FILMES ATROÁ e

TELA TUDO CLUBE DE CINEMA

 

facebook.com/ruadasarvores

 

montagem de som e imagem

NATASKA CONRADO

 

desenho de som

NATASKA CONRADO, NIVALDO

VASCONCELOS e MARIANNA BERNARDES

 

som direto

THAUANA FERREIRA

 

trilha sonora original

BARULHISTA

Premiações

.: Projeto contemplado pelo I Prêmio Guilherme Rogatto

da Prefeitura de Maceió/Alagoas (2013)

Exibições

.: IV Mostra Sururu de Cinema Alagoano (2013)
.: Mostra de Cinema de Gostoso 2014

A MEMÓRIA ESCOA , A MEMÓRIA COA, A MEMÓRIA ECOA.

por Hermano Figueiredo


A água da chuva empoçada na laje vai aos poucos passando pelas frestas formando gotas no teto. É preciso esperar com paciência a eminente queda das gotas no vazio e o eco do seu baque na poça rasa do chão se perder pelas paredes da casa vazia. Há sons imperceptíveis ao ouvido humano devido a frequência vibratória. É também preciso um ajuste de frequência no olhar para perceber pela contemplação a ação do tempo. Não é um trecho do curta Rua das Árvores mas bem que poderia ser, na verdade é um prolongamento, que seguiu acontecendo em minha mente, pois demorei a sair daquela casa depois que vi o filme.


Como a sucessão das gotas e o eco do seu baque em intervalos precisos. Assim a câmera da Alice e e a montagem da Nataska avançam sobre os pulsos de memória numa espécie de pas de deux, ou balanço de rede leve e ritmado pra fazer neném dormir e sonhar em alpendre de casa velha no meio de "uma tarde de quando ainda era cedo".


O lento ajuste de foco na foto em preto em branco nos apresenta o movimento inverso de um tempo que deixa baça as imagem do passado, mas Alice também nos apresenta um tempo ácido corroendo, desfigurando a matéria e apagando vestígios.


A rua aparece calma e semi deserta na foto onde o transeunte podia ouvir os sons da vida de dentro das casas. Hoje é o bulício da rua invadindo e ecoando na casa vazia do presente. Mesmo ali onde o movimento interno dos próprios planos é intenso, o intervalo de contemplação é quase o mesmo. Em todo o filme um mesmo pulsar, uma mesma respiração , uma mesma dança.


Cinema não é musica, mas no cinema como na musica a essência do trabalho é basicamente ritmo. Rua das Árvores me tirou pra dançar e eu aceitei o convite.

 

 
 
 
 

O FILME RUA DAS ÁRVORES E A DESTRUIÇÃO DA MEMÓRIA DE MACEIÓ

por Golbery Lessa

 

O historiador inveja as suas fontes orais. O idoso é sério concorrente de quem se arvora a reproduzir em texto um tempo social pretérito. Essas duas ideias se empoleiraram na minha mente quando vi o belo curta-metragem Rua das Árvores, da alagoana Alice Jardim. O filme foca numa casa abandonada da Rua Ladislau Neto (botânico alagoano), mais conhecida na Maceió do presente como Rua das Árvores, e nas memórias de uma moradora. Alice apresenta detalhes da residência, usando vários tipos de enquadramento e luz, enquanto a idosa narra, sem aparecer, suas experiências com a casa, a família, a cidade e a vida. A forma narrativa e seu conteúdo causam profunda catarse no expectador, pois milhares de maceioenses e habitantes de outras urbes do munto têm contido na garganta um grito em defesa da memória social, arquitetônica e urbanística das cidades.

As singularidades do capitalismo e da modernidade na capital alagoana elevaram ao poder, a partir da segunda metade dos anos 1960, uma elite que tem imposto enorme desrespeito aos edifícios e ao desenho urbanístico do passado, maculando, de modo irreversível, a memória urbana de gerações. A memória precisa da materialidade dos lugares, não se conserva e desenvolve apenas a partir de si mesma, como subjetividade pura e isolada do mudo exterior. O espírito precisa do corpo, o camponês anseia pela terra, o cidadão deseja a polis. Em Maceió, há décadas um pai não consegue mostrar ao filho nenhum dos lugares de sua infância e juventude, pois já não existem ou foram completamente descaracterizados. Os suportes arquitetônicos da memória, como praças, edifícios e monumentos, são apenas matéria, não sofrem, mas seu abandono representa o desprezo pela vivência de gerações de seres humanos palpitantes de vida, envoltos em sentimentos e sonhos.

O filme de Alice denuncia sutilmente o abandono dos lugares e a falta de continuidade arquitetônica e urbanística de Maceió nas últimas quatro décadas. Mostra que a arquitetura da cidade não transita, planejadamente, de um estilo mais antigo para um estilo mais contemporâneo. A substituição é feita aleatoriamente e de maneira abrupta, a partir da negação radical do passado. Apenas sobrevive o que é custoso derrubar e pode ser devidamente escondido por fachadas modernosas, como se pode ver nos prédios das lojas do Centro. Este processo é tão generalizado que transforma a cidade num labirinto, pois impede a continuidade dos marcos tomados como pontos de referências espaciais pelos habitantes.

Pelo olhar de Alice, vemos as camadas de tempo e a justaposição de tecnologias domésticas no interior da casa. As janelas fechadas para sempre. Um interruptor do início dos anos 1980. Gambiarras. Ladrilhos de várias épocas. O traço à caneta na parede da cozinha marcando a altura de uma criança.

Dei-nos uma etnografia do cotidiano ou apenas informações detalhadas sobre objetos comuns e poderemos deduzir a indústria, o comércio, a subjetividade coletiva e o poder político. O Capital, de Marx, trás centenas de descrições de fatos cotidianos em suas notas. Uma historiografia da vida comum é uma historiografia da totalidade, desde que se crie um link entre as duas dimensões. A narrativa da moradora, explorada na medida adequada no filme, costura o espólio apresentado e lhe dá sentido. O interior da casa fora montado com objetos importados da Europa. Aquelas paredes foram imersas nos valores morais e estéticos da burguesia. O avô era um rico comerciante e, talvez por isso, não convivia com os netos. A avó, a partir de um recalque surgido da opressão de gênero da qual era vítima, dissera a filha que esta nunca moraria ali quando adulta. A filha herdou a residência e deu continuidade à família debaixo daquele teto.

Este e outros trabalhos de Alice Jardim buscam salvar Maceió do esquecimento e da banalidade. O cotidiano e a imprensa diária apequenam tudo ao nosso redor. Diferente de Recife ou Salvador, Maceió não aparece poética, amada e central na subjetividade dos seus moradores. Só a arte e a ciência são capazes de mostrar uma cidade na sua grandeza humana aos seus próprios habitantes. Pela mão da jovem e sensível cineasta, passamos a ver as singularidades da nossa urbe articuladas com as dimensões universais do fenômeno urbano e, desse modo, superamos, a um só tempo, o bairrismo e a autodepreciação.

 

Originalmente publicado no site Reporter Alagoas.

 

 

RUA DAS ÁRVORES

por Chico Torres

 

Rua das Árvores. Se logo pensamos que é apenas um lugar a diminuir um pouco da vulgaridade do centro da capital maceioense, na experiência fílmica (não ouso chamar de documentário) de Alice Jardim, Rua das Árvores se torna um lugar de resistência. Lá resiste a memória e a nostalgia do mesmo modo que as raízes resistem ao asfalto. História de uma casa decrépita, história de uma vida que busca o passado como refúgio, mas não o encontra. “Eu sou um espírito antigo”, diz a voz que nos leva pelas imagens. Mais que imagens, fotos precisas de um fim: saltam-nos como uma preciosa velharia e quase podemos sentir o cheiro do mofo e da umidade que em tudo penetra; são imagens a contemplar o antigo, a flutuar lentamente, como num mundo aquático, sobre um universo abandonado. Sim, a casa é o universo idílico da mulher que nos conta suas saudades e seus medos antigos, mas ainda vivos. E por dentro, o lar que nos aparece sempre fragmentariamente, a ressaltar cada pedaço destruído que o compõe enquanto fantasma. Rua das Árvores: documentário, poema, filme feito de contemplação. Tão linda composição, de fotografia impecável, de sobreposições originalíssimas, de ajustes de contas com o ver e o sentir. Rua das Árvores. Saímos dos cacos e vamos para dentro dela, vemos os pés que pisam seu asfalto. Caímos na vulgaridade, no mutismo cotidiano, mas logo ali, pulsando, estão as árvores a viver de sabedoria milenar e também está a casa a clamar por um passado tão doce, como se a vida pudesse ainda ser “um senhor jardim!”.

RUA DAS ÁRVORES

por Ricardo Lessa

 

Em Rua das Árvores os átomos da memória da imagem de um espaço – que vagueiam através do vazio, se engancham, se fundem, proliferam – são os corpos flutuantes desta espécie de captura do oculto que a diretora Alice Jardim concebe, e sobretudo, são o modo como a captação deste passado (porque esse filme é, ontologicamente, um filme sobre a Morte da arqueologia desta parte do Centro de Maceió) se projeta, se lança ao espaço natural de um ecossistema das (re)memórias de tantas vidas e de desejos de recriações que as imagens de Alice acendem à luz vermelha da câmera. Entre os córregos filmados, os pés e as mãos (a arqueologia do homem) dos transeuntes desse espaço, Alice talvez filme (junto com Nivaldo Vasconcelos e o seu Mwany) os planos mais simbológicos do (re)nascimento do cinema feito hoje em Alagoas: uma flor, as plantas e, sobretudo, uma teia de aranha, e como que se no seu ondulamento, só possível à grande Natureza deste mundo, os átomos que compõem a fragilíssima espessura daquela névoa de colcha de retalhos traduzissem tudo, até as estrelas mais ardentes (é um berçário de estrelas como fez Godard, e como me confessara a memória genealógica de Ranieri Brandão ao pé do ouvido) e devolvem à Terra, finalmente, a luz sublimada de uma memória adormecida. E na segunda vez que a teia volta aos olhos do espectador, a aranha faz refulgir consigo pequenas e futuras sentinelas daquele universo. E os poros da imagem daquele armário aberto e tombado pelo tempo? Alice, no seu imenso gesto de filmar o afeto dos organismos da natureza (homem, plantas, flores, córregos, tintas, paredes, lama, verbo) parece capturar o invisível presente naquele móvel escancarado: o fantasma da presença das roupas um dia ali penduradas é como um ar fecundo que perpassou nas lúnulas adoradas dos amantes daquele corpo de madeira à fragrância dissolvente daquele espaço aberto, em que as imagens parecem dizer que o grande céu sob o qual ele dormia era o céu da aranha e de suas pequenas crias. Rua das Árvores é, sobretudo, um grande gesto de filmar as memórias daquelas vidas que palpitam em silêncio, para as estrelas que pulsam como corações.

 

Texto originalmente publicado no site Filmologia, durante a cobertura da IV Mostra Sururu de Cinema Alagoano.

 

 

 

RUA DAS ÁRVORES

por Cid Nader

 

O “chato” de conversar com amigos e outras pessoas antes de escrever sobre o filme visto é que podemos ser “contaminados” em nossas sensações, em nossas futuras observações: podemos desvirtuar certezas que pareceriam inabaláveis: normalmente fujo dessa possibilidade como o diabo da cruz. Hoje pela manhã (domingo), um amigo, durante o café puxou assunto sobre alguns filmes vistos na noite anterior e expôs uma opinião que é realmente para ser levada a sério, que alerta para outras questões de filmes vistos aqui em Alagoas: falava da percepção dele sobre uma certa necessidade/obrigatoriedade intuída por ele nos docs que temos visto, em fugir do efeito talking heads (quando se constrói documentários com muitas falas e explanações oradas, tendo como alvo, principalmente, a filmagem dos depoentes), mesmo concordando na excelência das imagens filmadas e planejadas como os elementos que mais têm saltado às primeiras percepções.

Aí chega a vez de escrever sobre mais um belo filme daqui que privilegia o rigor nas captações, com excelências obtidas por tomadas através de câmera fixa, com forte detalhamento de ambientes amplos em espaço aberto (principalmente no final, quando a rua é devassada, e quando as imagens em movimento tomam o lugar das paradas que prevaleciam até então), mais fortes ainda na percepção das fotos, dos trechos da casa em ruína, de teias de aranhas, na brincadeira com fotos inertes ou sendo tomadas por líquidos que transformavam suas texturas e imprimiam movimento “criado”, como se estivesse sendo feito um escarafunchar ambiental que é de resto de memórias: vale lembrar, que nesse rigor imprimido, o único instante em que há o movimento mais perceptível da câmera é no último take, a partir de um breve giro, quando ela capta de baixo pra cima a copas de umas árvores (na rua das árvores, afinal), remetendo inclusive a lago que lembra os últimos filmes de Terrence Malick.

Bem, voltando à observação do amigo do café: e porque seria necessário pelo tempo todo o depoimento da senhora que morou na casa e na rua retratadas – mesmo tendo em suas falas alguns momentos de muita beleza e singeleza? E sim, pensando na questão – especificamente aqui -, me parece mesmo um ato a mais, um trecho que poderia ser mais enxuto, principalmente porque a beleza das captações e o feito com elas na edição já contariam por si só quase tudo que precisaríamos “ouvir”. Continua belo e importante na minha memória, mas realmente poderia ser mais corajoso se prescindisse de boa parte do narrado oralmente.

 

Texto originalmente publicado no site Cinequanom, durante a cobertura da IV Mostra Sururu de Cinema Alagoano.

 

 

 

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